🗨️Aracaju: viver, não apenas receber

A quem quiser ouvir,

Há decisões na vida que não se explicam com mapas nem com estatísticas. São escolhas que nascem de algo mais sutil, quase intuitivo, e que acabam por definir não apenas onde estamos, mas como vivemos. Quando cheguei a Aracaju, não vinha à procura de um destino turístico nem de uma experiência passageira. Não procurava aquilo que normalmente se promove de fora: praias, clima, ou promessas de crescimento rápido. O que procurava era mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil de encontrar: um lugar onde fosse possível viver bem, com equilíbrio, com uma certa normalidade que hoje em dia se tornou rara.

E encontrei isso aqui.

Aracaju oferecia — e em grande parte ainda oferece — algo que muitas cidades já perderam sem sequer se aperceberem quando isso aconteceu. Um ritmo humano, uma escala compreensível, uma sensação de segurança razoável, serviços que funcionam, uma convivência que não está permanentemente sob pressão. Não se trata de idealizar a cidade nem de ignorar as suas limitações. Trata-se de reconhecer que, no conjunto, existe um equilíbrio que não é comum e que, precisamente por isso, tem um valor difícil de medir.

Talvez seja essa consciência que me leva a escrever estas linhas.

Porque não é a primeira vez que encontro esse tipo de equilíbrio. E, infelizmente, também não seria a primeira vez que assisto à sua perda. Não como um analista distante ou como alguém que observa tendências a partir de fora, mas como alguém que viveu esse processo por dentro e que acabou, em mais de uma ocasião, por tomar a decisão de sair. Não por capricho, nem por procura de algo melhor no sentido superficial do termo, mas porque o lugar que um dia tinha sido escolhido para viver deixou, progressivamente, de oferecer as condições que justificavam essa escolha.

Foi o que aconteceu em Barcelona, a cidade onde nasci. Ao longo dos anos, e especialmente a partir da projeção internacional que se seguiu aos Jogos Olímpicos de 1992, a cidade transformou-se num dos destinos mais desejados do mundo. Essa transformação trouxe investimento, visibilidade, dinamismo económico. Mas trouxe também uma pressão crescente sobre o espaço urbano, sobre os preços, sobre o próprio sentido da cidade. Aquilo que inicialmente parecia uma evolução natural acabou por redefinir completamente a forma como a cidade era vivida, ao ponto de se tornar, para muitos dos seus próprios habitantes, um lugar cada vez mais difícil de habitar.

Mais tarde, em Salvador, encontrei um processo diferente na forma, mas com consequências que apontavam na mesma direção. Uma cidade de enorme riqueza cultural e histórica, mas onde o equilíbrio se foi degradando ao longo do tempo, com impacto direto na segurança, na organização urbana e na qualidade de vida. Não foi um colapso repentino, mas uma erosão contínua, quase silenciosa, que acabou por alterar profundamente a experiência de quem ali vivia.

Em ambos os casos, há um elemento comum que vale a pena sublinhar: nada aconteceu de um dia para o outro. As mudanças foram progressivas, muitas vezes justificadas por razões legítimas, e durante muito tempo pareceram controláveis. O problema é que existe sempre um ponto de inflexão que raramente é identificado quando ocorre. Uma linha invisível que, quando é ultrapassada, muda a lógica de funcionamento da cidade. E, quando essa mudança se torna evidente, já não é fácil — e muitas vezes já não é possível — regressar ao estado anterior.

É com essa memória que olho hoje para Aracaju.

Não com alarmismo, nem com a intenção de estabelecer paralelismos forçados, mas com a atenção de quem já percorreu caminhos semelhantes. E começo a identificar sinais que, embora ainda incipientes, são reconhecíveis. Uma aposta crescente no turismo como motor de crescimento, uma valorização da visibilidade externa, uma lógica de desenvolvimento que tende a privilegiar resultados rápidos e facilmente mensuráveis.

Convém dizer com clareza: o turismo, por si só, não é um problema. Nunca foi. É uma atividade legítima, capaz de gerar riqueza, dinamizar setores económicos e projetar uma cidade para além das suas fronteiras. O problema surge quando o turismo deixa de ser uma componente integrada de um modelo mais amplo e passa a assumir um papel central, quase exclusivo, na definição do rumo.

Porque o turismo tem uma característica que o torna particularmente sedutor: produz resultados imediatos. O impacto é visível, os números são tangíveis, os benefícios podem ser apresentados de forma clara. Mas essa mesma característica esconde uma fragilidade estrutural. O que é rápido a crescer pode ser igualmente rápido a desequilibrar. E os custos associados — a pressão sobre os serviços, o aumento do custo de vida, a transformação do espaço urbano, a adaptação da cidade a quem a visita — tendem a surgir de forma gradual, muitas vezes fora do foco inicial das decisões.

Essa pressão, que no início pode parecer difusa, acaba por ganhar uma forma muito concreta no espaço urbano. Um dos sinais mais claros desse processo surge no mercado imobiliário, que rapidamente capta as oportunidades de curto prazo associadas ao turismo. A multiplicação de unidades residenciais orientadas para estadias temporárias, muitas vezes através de plataformas como Airbnb, começa a alterar de forma silenciosa a lógica de ocupação da cidade.

O que antes era pensado para viver passa, pouco a pouco, a ser pensado para rentabilizar. E essa mudança, embora possa parecer legítima do ponto de vista individual, tem efeitos cumulativos que não são neutros: pressiona os preços, reduz a oferta de habitação estável e introduz uma dinâmica especulativa que afasta a cidade da sua função original. O espaço urbano deixa de responder prioritariamente às necessidades de quem ali constrói a sua vida e passa a adaptar-se a uma procura mais volátil, mais transitória, mais orientada ao consumo do lugar.

É um processo discreto, muitas vezes invisível no início, mas profundamente transformador. Porque quando a habitação deixa de ser, antes de mais, um lugar para viver, a cidade começa, inevitavelmente, a mudar de natureza.

quando a casa se transforma em ativo… a cidade começa a deixar de ser casa

Nem todo crescimento é desenvolvimento.

Desenvolver uma cidade implica pensar no longo prazo, na qualidade de vida de quem a habita, na sustentabilidade das decisões que se tomam hoje. Crescer, por outro lado, pode limitar-se a aumentar números, a gerar movimento, a criar a sensação de progresso sem necessariamente consolidar bases sólidas.

Aracaju, neste momento, parece situar-se precisamente nesse espaço intermédio. Ainda não perdeu aquilo que a torna especial, mas começa a experimentar pressões que podem, se não forem bem geridas, alterar esse equilíbrio. E é aqui que a reflexão se torna relevante, não como crítica, mas como oportunidade.

Importa também clarificar um ponto essencial: a responsabilidade deste processo não recai sobre os moradores. As cidades não se transformam de forma espontânea, nem por decisão difusa de quem nelas vive. Transformam-se a partir de opções concretas, de políticas públicas, de estratégias de desenvolvimento que orientam o seu crescimento.

A responsabilidade é, fundamentalmente, das autoridades.

É de quem define prioridades, de quem decide onde investir, de quem estabelece o modelo de cidade que se pretende construir. Garantir serviços de qualidade, proteger a habitabilidade, criar oportunidades de crescimento para os residentes, preservar o equilíbrio entre diferentes atividades económicas — tudo isso faz parte de uma responsabilidade que não pode ser delegada nem diluída.

Uma cidade existe, antes de mais, para quem a vive.

Essa ideia, que parece evidente, é muitas vezes esquecida quando o foco se desloca para aquilo que é mais visível, mais imediato, mais facilmente comunicável. O turismo pode — e deve — fazer parte da equação, mas não pode substituir o seu sentido fundamental.

Existem alternativas. Caminhos que não produzem resultados tão imediatos, mas que constroem bases mais sólidas. Apostar na educação, no reforço das universidades, na atração e retenção de talento. Criar condições para o desenvolvimento de setores ligados à tecnologia, à inovação, à economia do conhecimento. Promover atividades que gerem valor acrescentado e que contribuam para a estabilidade a longo prazo. Atrair pessoas que escolham a cidade para viver, para construir, para permanecer.

Esse tipo de desenvolvimento não se traduz em picos de ocupação ou em números espetaculares a curto prazo. Mas constrói uma economia mais equilibrada, distribui melhor os benefícios e, sobretudo, preserva aquilo que faz uma cidade valer a pena.

No fundo, é isso que está em causa.

Não se trata de escolher entre abrir-se ao mundo ou fechar-se sobre si mesma. Trata-se de definir em que termos essa abertura acontece e a quem serve, em primeiro lugar. Trata-se de decidir se a cidade evolui a partir das necessidades de quem nela vive ou se se adapta, progressivamente, às expectativas de quem a visita.

Escrevo estas linhas não como alguém que observa de fora, mas como alguém que escolheu estar aqui. Alguém que encontrou em Aracaju algo que já não é comum e que, precisamente por isso, merece ser cuidado com atenção.

Há cidades que se tornam destinos, e há cidades que continuam a ser lugares para viver. À primeira vista, pode parecer apenas uma diferença de vocação, quase uma evolução natural ditada pelo tempo, pelo crescimento ou pela projeção externa. Mas essa leitura, embora confortável, esconde uma realidade mais exigente: esse equilíbrio não se mantém sozinho. Não é fruto do acaso, nem de uma espécie de inércia benigna que protege, por si só, aquilo que tem valor.

Chega sempre um momento — discreto, quase imperceptível — em que uma cidade se aproxima de uma escolha. Não uma escolha teórica, nem um debate abstrato, mas uma decisão concreta que se vai materializando em pequenas ações, em prioridades que se definem, em caminhos que se abrem enquanto outros se vão fechando sem fazer ruído. É nesse ponto que surge a verdadeira bifurcação: um lugar onde já não é possível avançar em duas direções ao mesmo tempo, ainda que durante algum tempo se mantenha a ilusão de que tudo pode coexistir sem conflito.

A partir daí, o rumo começa a desenhar-se. Ou se decide, com intenção e clareza, preservar as condições que tornam a vida possível e desejável para quem ali vive — protegendo o equilíbrio, cuidando da habitabilidade, pensando no longo prazo —, ou se permite que a lógica do imediato, sempre mais sedutora e visível, vá redesenhando a cidade de forma progressiva, quase silenciosa, até que se transforme noutra coisa.

O mais enganador, talvez, seja a ideia de que não decidir é uma forma de neutralidade. Que deixar as coisas seguirem o seu curso evita responsabilidades ou conflitos. Mas a experiência mostra precisamente o contrário. Quando não se define um rumo, o rumo acaba por se impor sozinho. E esse caminho raramente é o mais consciente ou o mais equilibrado; é, quase sempre, o mais fácil, o mais rápido, o mais imediato.

Manter o equilíbrio, por isso, não é um estado que se conserva, mas um esforço que se renova. Exige intenção, exige direção, exige decisão. E é talvez aí, nesse gesto aparentemente invisível de escolher e sustentar um caminho, que reside uma das maiores responsabilidades do nosso tempo.

Aracaju ainda tem a oportunidade de ser uma cidade que vive e que recebe, sem que uma coisa devore a outra. Mas esse equilíbrio não é um acaso que se conserva sozinho. É uma escolha. E, como toda escolha, exige consciência. Porque, no fim, há uma verdade que não deveria ser esquecida: as cidades existem, antes de tudo, para quem as habita.

1 comentari a “🗨️Aracaju: viver, não apenas receber”

  1. Rescatar algú d’una ciutat que es va esllanguint no és treure’l físicament d’un lloc, sinó ajudar-lo a no dissoldre’s dins d’ell.
    Aquesta situació no serà la viscuda per tu, Francesc, en la mesura que n’ets conscient i ho avances, fins i tot esperant ser escoltat. D’aquí les teves reflexions en aquest article, on descrius com Aracaju es va buidant de sentit.
    El rescat comença amb aquesta mirada de pèrdua de genuïnitat real i amb el reconeixement que tens dret a sentir-te afectat.
    El veritable rescat és transmetre, explicar i compartir la seva història, i fer viu allò que observes que desapareix. També hi ha una part més dura: acceptar que no tot es pot salvar. El rescat implica ajudar a distingir entre el que encara es pot sostenir i el que cal deixar anar, sense que això signifiqui perdre’s un mateix.
    I, finalment, hi ha la sortida —no sempre física, però sí interior. Quan la ciutat deixa de ser casa, la persona ha de poder reconstruir-se sense ella, portant-se’n allò essencial. No com un exili, sinó com una transformació: la ciutat continua dins seu, però ja no la defineix completament.
    Rescatar algú, en aquest cas, és donar-li eines perquè no es converteixi en una peça més d’una ciutat que oblida. És ajudar-lo a recordar qui és, fins i tot quan el lloc que l’havia fet ser-ho ja no existeix del tot.
    Potser sóc un xic tremendista, però sentir-se aliè en una ciutat aliena és el més naturalment contra natura.

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