
Este espaço nasce de uma escolha consciente e de uma forma de compromisso com a realidade que me rodeia, construída ao longo de mais de duas décadas de vida neste país que não é a minha origem, mas que, com o tempo, se tornou uma parte essencial da minha existência. Sou catalão de nascimento, mas sinto-me, com naturalidade e sem necessidade de formalizações, brasileiro de adoção. Não cheguei aqui por acaso, nem por imposição das circunstâncias; fiquei por decisão, e essa decisão, com o passar dos anos, deixou de ser apenas uma escolha prática para se transformar numa forma de pertença construída no tempo, na experiência e na relação quotidiana com esta terra.
Ser acolhido por um país, quando esse acolhimento é genuíno, não gera apenas gratidão, gera também um certo sentido de responsabilidade, uma vontade de não ficar na superfície, de não olhar apenas para aquilo que é confortável ou evidente, mas de procurar compreender a realidade na sua totalidade, com as suas virtudes e também com as suas limitações. O Brasil, ao longo destes anos, revelou-se a mim como um país de enorme vitalidade, de uma riqueza humana difícil de encontrar noutros lugares, de uma diversidade que não se explica facilmente, mas que se sente em cada região, em cada contexto, em cada interação.
Mas há um momento em que a admiração, se for honesta, deixa de ser suficiente por si só e dá lugar a uma necessidade de compreensão mais profunda, uma compreensão que não evita aquilo que é incômodo, mas que também não cai na tentação de simplificar ou julgar de forma superficial. E é nesse plano que surge uma constatação que não pode ser ignorada: o Brasil não é um país comum, nem pela sua dimensão, nem pelos seus recursos, nem pela sua posição potencial no mundo que se está a desenhar nas próximas décadas.
Poucos países no mundo reúnem, de forma simultânea, território, abundância de recursos naturais, diversidade energética, capacidade de produção e uma população numerosa com forte identidade. Num contexto global que se encaminha para transformações profundas — energéticas, econômicas e geopolíticas — estas características colocam o Brasil numa posição objetivamente privilegiada, oferecendo-lhe uma oportunidade histórica que não surge com frequência e que, uma vez perdida, dificilmente se repete no mesmo formato.
E, no entanto, ao longo do tempo, torna-se evidente que existe um desencontro persistente entre esse potencial estrutural e a forma como ele é vivido, percecionado e concretizado no dia a dia do país. Não se trata de uma leitura teórica ou distante, mas de uma experiência direta, vivida na prática, onde muitas vezes se sente que a dinâmica dominante não favorece quem constrói, quem investe ou quem tenta fazer avançar projetos de forma consistente.
Existe uma expressão que ouvi repetidamente ao longo destes anos, dita de forma quase resignada, como se descrevesse uma realidade já aceite: “é mais fácil atrapalhar que trabalhar”. E o mais preocupante nesta frase não é apenas o seu conteúdo, mas o facto de ser reconhecida como algo próximo da normalidade. Quando criar dificuldades se torna mais simples do que facilitar processos, quando quem faz encontra mais obstáculos do que apoio, o sistema, mesmo sem o assumir, começa a penalizar o esforço e a consistência.
A esta realidade junta-se uma estrutura social que, em muitos casos, condiciona a forma como as pessoas se percecionam a si próprias e ao seu próprio percurso, através de classificações que acabam por limitar horizontes e expectativas. Quando a mobilidade parece distante ou incerta, surgem atalhos, e esses atalhos, longe de resolverem o problema de fundo, acabam por introduzir dinâmicas que atravessam toda a sociedade, criando um ambiente onde a confiança se fragiliza e onde a construção de longo prazo se torna mais difícil.
Mas há um ponto particularmente sensível, que ao longo do tempo se torna impossível de ignorar e que merece ser dito com clareza: existe, em muitos brasileiros, um orgulho profundo pelo seu país, uma ligação emocional forte, uma identidade assumida sem reservas, mas que convive, de forma paradoxal, com um desejo igualmente forte de sair, de procurar fora aquilo que se acredita não ser possível encontrar dentro.
Este fenómeno não é pontual nem marginal; é transversal, repetido, quase naturalizado em muitas conversas e trajetórias de vida. E, no entanto, quando se observa com mais atenção, percebe-se que essa ideia de que “lá fora será melhor” nem sempre corresponde à realidade, mas sim a uma perceção construída à distância, muitas vezes incompleta ou idealizada.
Não se trata de desvalorizar a experiência internacional, que pode ser enriquecedora e necessária em muitos casos, mas sim de questionar a transformação dessa saída numa espécie de destino inevitável, como se o país não tivesse condições para oferecer um futuro sólido, estruturado e ambicioso aos seus próprios cidadãos. Quando esta lógica se instala, o país começa a perder não apenas talento, mas também confiança em si próprio, e um país que deixa de acreditar na sua capacidade interna dificilmente constrói um projeto consistente de futuro.
Ao mesmo tempo, o mundo está a entrar numa fase de transformação profunda, onde os equilíbrios existentes se tornam instáveis e onde novas oportunidades emergem num intervalo de tempo limitado. As próximas décadas não serão uma continuidade do passado recente; serão um período de redefinição, onde países preparados poderão dar saltos significativos, enquanto outros ficarão presos em dinâmicas internas que os impedem de avançar.
O Brasil tem condições excecionais para transformar este momento numa oportunidade histórica, mas isso exige algo que vai muito além da gestão do presente. Exige visão de longo prazo, exige capacidade de construir planos que ultrapassem ciclos políticos, exige continuidade entre diferentes mandatos e, sobretudo, exige um funcionamento institucional baseado no respeito efetivo entre os diferentes poderes, cada um concentrado na sua responsabilidade, sem a permanente tentação de interferir ou neutralizar os outros, numa dinâmica que consome energia e bloqueia qualquer tentativa de construção estruturada.
No domínio da energia, em particular, o país encontra-se numa posição singular, com recursos que poderiam não apenas garantir autonomia, mas também posicionar o Brasil como uma referência global num dos eixos centrais do futuro. Mas esse caminho não se constrói com iniciativas pontuais ou discursos circunstanciais; constrói-se com estratégia, com consistência e com desenvolvimento industrial próprio, capaz de transformar potencial em realidade concreta.
“O meu amigo Brasil” nasce neste ponto de tensão entre aquilo que o país é e aquilo que pode vir a ser, não como um espaço de crítica fácil nem como um exercício de entusiasmo vazio, mas como uma tentativa de olhar com profundidade e clareza para uma realidade que merece ser pensada sem simplificações.
Escrevo como alguém que escolheu estar aqui, que se sente parte deste país, não por origem, mas por decisão, e que acredita que a verdadeira amizade não se constrói apenas com palavras de admiração, mas também com a capacidade de dizer aquilo que se vê, não para julgar, mas para contribuir para uma reflexão mais consciente.
Porque acreditar no Brasil não é apenas um gesto emocional, nem uma afirmação repetida em momentos de entusiasmo coletivo; é um exercício de lucidez que implica reconhecer o potencial extraordinário que existe, identificar os bloqueios que ainda persistem e assumir, de forma consciente, um compromisso com aquilo que ainda pode ser construído.
Você pode continuar lendo o artigo a seguir aqui: Aracaju: viver, não apenas receber
Segueix explorant / Continue explorando
Aquest article no és una peça aïllada. Forma part d’un sistema més ampli de reflexió.
Este artigo não é uma peça isolada. Faz parte de um sistema mais amplo de reflexão.
👉 Pensem?