
O mundo muda muitas vezes sem anunciar claramente que está mudando. Não existem sirenes históricas, nem momentos exatos em que uma época termina e outra começa. Durante bastante tempo, as transformações mais profundas convivem com a aparência de normalidade. As estruturas continuam de pé, os mercados continuam funcionando, os governos continuam discutindo os mesmos temas, e a sensação de continuidade faz parecer que tudo permanece essencialmente igual. Mas não permanece.
O período compreendido entre o final da Guerra Fria e as primeiras décadas do século XXI foi, em muitos aspectos, uma exceção histórica difícil de repetir. O mundo viveu uma fase relativamente estável de globalização crescente, expansão tecnológica acelerada, aumento contínuo do comércio internacional e uma percepção quase generalizada de que o progresso econômico e tecnológico avançaria de forma praticamente automática. A energia parecia suficientemente disponível, as cadeias produtivas espalhavam-se pelo planeta em busca de eficiência, e grande parte das sociedades habituou-se à ideia de que o crescimento, apesar das crises pontuais, era uma espécie de tendência natural do sistema global.
Foi também um período marcado por uma certa ingenuidade geopolítica.
Muitos acreditaram que a interdependência econômica reduziria estruturalmente os conflitos, que os grandes confrontos estratégicos pertenciam ao passado e que a tecnologia, por si só, aproximaria os países numa lógica progressivamente cooperativa. A própria globalização passou a ser vista quase como um processo irreversível, capaz de integrar interesses, reduzir tensões e uniformizar prioridades.
Mas o mundo raramente permanece imóvel durante muito tempo.
Nas últimas décadas, começaram a surgir sinais de que esse ciclo talvez estivesse entrando numa fase diferente. Não necessariamente através de um único acontecimento, mas pela acumulação de tensões que, pouco a pouco, começaram a alterar o comportamento das grandes potências e a lógica de funcionamento do próprio sistema internacional. A competição estratégica regressou ao centro das decisões globais. Recursos considerados abundantes passaram a ser observados como ativos críticos. Cadeias produtivas antes construídas exclusivamente com base na eficiência começaram a ser revistas sob critérios de segurança e dependência. A tecnologia deixou de ser apenas motor econômico para transformar-se também em instrumento de soberania, influência e poder.
Ao mesmo tempo, o setor energético começou a revelar uma complexidade crescente. A transição para novos modelos, a pressão sobre fontes tradicionais, a expansão da inteligência artificial, dos centros de dados e da infraestrutura digital passaram a aumentar significativamente a necessidade de energia estável, abundante e segura. E, silenciosamente, os minerais estratégicos começaram a adquirir uma importância comparável àquela que o petróleo teve durante grande parte do século XX.
Nada disso significa que o mundo esteja caminhando inevitavelmente para o colapso. Mas significa, provavelmente, que estamos entrando numa etapa mais exigente. Uma etapa onde países, empresas e sociedades precisarão disputar posição com mais intensidade, proteger capacidades estratégicas e pensar com horizontes mais longos. O conforto estrutural das últimas décadas talvez tenha criado a ilusão de que o futuro avançaria sozinho. E a história raramente funciona assim.
O século XXI poderá ser menos confortável, mais tecnológico e muito mais competitivo.
O novo mundo que está emergindo
Uma das mudanças mais profundas — e talvez menos compreendidas — do mundo que está surgindo não acontece apenas na economia, na tecnologia ou na geopolítica. Acontece também na própria estrutura humana das sociedades. Durante muito tempo, a ideia de crescimento populacional foi associada à imagem de um planeta cada vez mais cheio, mais jovem e mais pressionado pela expansão contínua da população. Mas a realidade que começa a emergir é mais complexa.
Grande parte das sociedades mais desenvolvidas está envelhecendo rapidamente.
A Europa já vive esse processo há décadas. O Japão tornou-se quase um símbolo antecipado dessa transformação: baixa natalidade, envelhecimento estrutural e redução gradual da população ativa. A China, que durante muitos anos foi observada como a grande potência demográfica do século XXI, começa agora a enfrentar uma mudança extremamente acelerada no seu perfil populacional. Depois de décadas de crescimento sustentado, o país entra numa fase onde o envelhecimento e a redução relativa da força de trabalho passam a representar um desafio estratégico de primeira grandeza.
Os Estados Unidos, por sua vez, continuam possuindo maior capacidade de renovação populacional, em parte graças à imigração e à sua capacidade histórica de atrair talento, mão de obra e capital humano do resto do mundo. Ainda assim, também enfrentam pressões demográficas crescentes que obrigam a repensar produtividade, automação e estrutura econômica.
Ao mesmo tempo, o centro de gravidade populacional do planeta começa lentamente a deslocar-se. Regiões que durante grande parte do século XX concentravam o peso econômico e humano global entram em fases de envelhecimento estrutural, enquanto outras regiões mantêm populações mais jovens e em crescimento. Isto altera não apenas mercados de trabalho, mas também padrões de consumo, sistemas previdenciários, capacidade produtiva, equilíbrio fiscal e até mesmo o peso político relativo das nações.
A população ativa global começará a mudar profundamente ao longo das próximas décadas.
E esta transformação terá consequências muito maiores do que normalmente se admite. Porque o século XXI poderá ser marcado por uma situação paradoxal: um mundo tecnologicamente mais avançado, mas simultaneamente pressionado pela redução relativa da sua capacidade humana produtiva em várias das principais economias globais. Neste contexto, tecnologia, automação, inteligência artificial e produtividade deixam de ser apenas fatores de competitividade para tornarem-se elementos essenciais de sustentação estrutural.
Mas a transformação do mundo não ocorre apenas através da demografia. Ela ocorre também através daquilo que sustenta fisicamente o funcionamento das sociedades modernas.
Durante grande parte do século XX, o petróleo ocupou uma posição central na lógica estratégica global. E continuará importante durante muito tempo. A infraestrutura energética mundial, a logística, a indústria e o próprio funcionamento da economia global ainda dependem fortemente dele. No entanto, à medida que novas tecnologias avançam, outros recursos começam a adquirir um peso crescente e silencioso.
Minerais críticos passam gradualmente a ocupar um espaço estratégico cada vez mais relevante.
Lítio, terras raras, nióbio, cobre, grafite, urânio, silício, gálio, germânio e outros materiais tornam-se peças fundamentais de um novo sistema industrial e tecnológico baseado em baterias, centros de dados, inteligência artificial, telecomunicações, redes elétricas avançadas, automação, defesa, computação e transição energética.
E talvez um dos aspectos mais importantes desta mudança seja precisamente o fato de que ela ainda permanece relativamente invisível para grande parte da população.
As grandes potências já começaram a competir silenciosamente por estes recursos. Não apenas através de mercados, mas através de investimentos estratégicos, acordos comerciais, controle de cadeias produtivas, aquisição de ativos minerais, desenvolvimento tecnológico e proteção de setores considerados críticos para o futuro. Porque o mundo que emerge começa lentamente a compreender algo que durante muito tempo foi subestimado: no século XXI, soberania não dependerá apenas de território ou força militar, mas também da capacidade de controlar energia, tecnologia, dados e recursos estratégicos essenciais para sustentar sociedades altamente complexas.
O Brasil diante desta transformação
É precisamente neste cenário de transformação global que o Brasil começa a adquirir uma relevância potencial muito maior do que aquela que muitas vezes atribui a si próprio. Porque, enquanto parte importante do mundo enfrenta limitações demográficas, energéticas, territoriais ou minerais, o Brasil reúne uma combinação de fatores que poucos países possuem simultaneamente.
Território, água, capacidade energética, produção alimentar, reservas minerais, biodiversidade, população significativa e posição geográfica relativamente protegida formam um conjunto estrutural raro no mundo contemporâneo. Em muitos casos, países possuem tecnologia, mas carecem de recursos. Outros possuem recursos, mas enfrentam limitações territoriais, energéticas ou populacionais. Alguns têm capital financeiro, mas dependem fortemente de cadeias externas para garantir o funcionamento básico das suas economias.
O Brasil, pelo contrário, possui uma base material de enorme dimensão. A capacidade agrícola brasileira já ocupa posição central no abastecimento global. A disponibilidade de água doce tende a ganhar importância crescente num planeta pressionado por mudanças climáticas e expansão urbana. O potencial energético continua sendo um dos maiores do mundo, tanto em fontes tradicionais quanto em possibilidades futuras ligadas à energia solar, biomassa, hidrelétrica e outras formas de geração. A mineração brasileira fornece elementos fundamentais para múltiplas cadeias industriais estratégicas, precisamente quando minerais críticos começam a adquirir importância estrutural para as próximas décadas.
Mas talvez exista um elemento ainda mais importante do que todos os recursos naturais que o Brasil possui: a capacidade de formar as pessoas que deverão sustentar o país do século XXI. Porque recursos, por si só, não constroem potência. O verdadeiro diferencial das próximas décadas estará cada vez mais ligado à capacidade humana de transformar esses recursos em tecnologia, indústria, infraestrutura, energia, conhecimento e capacidade estratégica. E isso exige tempo.
Formar engenheiros, técnicos, pesquisadores, especialistas em inteligência artificial, automação, energia, mineração avançada, computação e sistemas industriais complexos não é algo que se improvisa rapidamente quando a necessidade já se torna urgente. Exige continuidade, planejamento e, sobretudo, visão de longo prazo.
Talvez uma das decisões mais importantes que o Brasil precisará tomar nos próximos anos seja precisamente esta: começar imediatamente a preparar as gerações que deverão construir o país que o século XXI exigirá.
Porque o mundo que está emergindo poderá continuar comprando recursos naturais durante muito tempo. Mas o verdadeiro poder tenderá a concentrar-se cada vez mais naqueles que conseguirem transformar recursos em capacidade tecnológica, produtiva e estratégica própria.
Além disso, existe um fator que raramente recebe a atenção adequada: escala. O Brasil não é apenas um país rico em recursos. É um país de dimensão continental, com mercado interno significativo, capacidade produtiva diversificada e massa crítica suficiente para sustentar processos industriais e tecnológicos complexos caso exista direção estratégica de longo prazo. E isso faz uma enorme diferença num mundo onde tamanho, infraestrutura, energia e capacidade interna voltarão a ser elementos centrais de poder.
Poucos países reúnem tantas condições estruturais ao mesmo tempo. Mas a história também demonstra algo importante — e muitas vezes desconfortável. Possuir recursos não garante desenvolvimento. Possuir território não garante potência. E possuir riqueza natural, por si só, não garante soberania tecnológica nem influência global.
Muitos países extraordinariamente ricos em recursos permaneceram presos durante décadas a modelos baseados quase exclusivamente na exportação de matéria-prima, dependentes tecnologicamente e vulneráveis às decisões tomadas fora das suas fronteiras. Em vários casos, a abundância natural acabou coexistindo com baixa complexidade industrial, limitada capacidade tecnológica e dependência financeira externa.
Porque o verdadeiro diferencial das grandes potências raramente está apenas naquilo que extraem do solo. Está naquilo que conseguem construir a partir disso.
Exportar recursos pode gerar riqueza. Mas transformar recursos em tecnologia, indústria, infraestrutura, conhecimento e capacidade estratégica é aquilo que realmente constrói poder duradouro. E talvez seja precisamente aqui que o Brasil enfrenta uma das decisões mais importantes do seu século.
O país possui minerais estratégicos num momento em que o mundo começa a disputar silenciosamente esses recursos. Possui capacidade energética relevante quando a energia volta ao centro das preocupações globais. Possui território, agricultura, água e dimensão interna num período em que segurança alimentar, estabilidade e autonomia produtiva tornam-se cada vez mais importantes.
Mas também enfrenta riscos claros. O risco de continuar ocupando principalmente o papel de fornecedor de commodities para economias tecnologicamente mais avançadas. O risco de depender excessivamente de tecnologia externa em setores estratégicos. O risco de perder progressivamente o controle sobre recursos, infraestrutura e cadeias produtivas consideradas críticas no futuro próximo. Porque dependência moderna raramente se apresenta como ocupação explícita. Ela surge através de controle tecnológico, financeiro, industrial e logístico. E é precisamente por isso que o momento atual talvez represente uma oportunidade histórica rara para o Brasil.
O país ainda possui tempo. Ainda possui população ativa significativa. Ainda possui margem de crescimento econômico e industrial. Ainda possui espaço para construir infraestrutura, capacidade tecnológica e setores estratégicos próprios antes que o envelhecimento populacional se torne uma pressão estrutural mais intensa.
Ao contrário de várias economias já envelhecidas, o Brasil ainda atravessa uma fase em que pode decidir como deseja posicionar-se nas próximas décadas. Pode continuar avançando de forma relativamente espontânea, adaptando-se às circunstâncias globais conforme elas surgem. Ou pode começar a pensar de maneira mais estratégica sobre aquilo que deseja tornar-se no mundo que está emergindo.
Mas essa janela não será eterna. O tempo demográfico não funciona na velocidade da política. Quando determinadas mudanças estruturais se consolidam, revertê-las torna-se extremamente difícil. E talvez um dos maiores erros históricos que um país pode cometer seja imaginar que oportunidades estratégicas permanecem disponíveis indefinidamente apenas porque ainda parecem presentes hoje.
A questão que o Brasil precisará enfrentar
Talvez seja precisamente neste ponto que começa a surgir a pergunta mais importante de todas. Uma pergunta que, embora raramente formulada de maneira explícita, atravessará inevitavelmente as próximas décadas da história brasileira.
O Brasil quer apenas participar do século XXI… ou quer ajudar a defini-lo? A diferença entre estas duas possibilidades é muito maior do que parece.
Participar significa adaptar-se ao mundo que outros organizam. Significa encontrar espaço dentro de estruturas econômicas, tecnológicas e estratégicas já definidas externamente. Significa crescer quando o cenário internacional permite, exportar quando a demanda global aumenta e ajustar-se às transformações conduzidas por aqueles que possuem maior capacidade de direção tecnológica, financeira e industrial.
Definir, pelo contrário, implica algo muito mais exigente. Implica construir capacidade própria. Implica possuir margem real de decisão. Implica desenvolver setores estratégicos capazes de sustentar autonomia produtiva, tecnológica e energética ao longo do tempo. Implica também preparar, desde agora, o capital humano capaz de sustentar essa transformação ao longo das próximas décadas. Porque nenhuma capacidade tecnológica ou industrial se consolida sem gerações suficientemente preparadas para desenvolvê-la, operá-la e fazê-la evoluir no tempo. Implica deixar de ser apenas parte de cadeias globais para começar também a influenciar a forma como essas cadeias se organizam.
E é justamente aqui que aparece uma distinção fundamental que muitos países ricos em recursos nunca conseguiram superar. Existe uma enorme diferença entre exportar commodities e gerar valor estratégico.
Exportar minério, petróleo, produtos agrícolas ou energia pode produzir crescimento econômico relevante durante determinados períodos. Pode gerar receitas, consumo e dinamismo interno. Mas crescimento, por si só, não transforma automaticamente um país em potência estrutural. Porque a parte mais valiosa do sistema global raramente permanece na extração primária. Ela concentra-se no conhecimento, na tecnologia, no refinamento industrial, na propriedade intelectual, na engenharia, na capacidade de transformação e no controle das cadeias produtivas mais complexas.
No fundo, a diferença entre vender matéria-prima e construir capacidade industrial avançada é a diferença entre participar do sistema… ou influenciar o sistema. Da mesma forma, existe também uma diferença profunda entre possuir território e transformar-se efetivamente em potência. O território oferece possibilidades. A potência exige organização.
A história demonstra que dimensões continentais, abundância de recursos e grande população não garantem automaticamente protagonismo internacional. O que transforma escala em influência é a capacidade de alinhar infraestrutura, educação, tecnologia, energia, logística, estabilidade institucional e visão estratégica ao longo de décadas. Sem esse alinhamento, mesmo países enormes podem permanecer limitados a um papel secundário dentro das grandes dinâmicas globais.
E talvez seja precisamente aqui que o desafio brasileiro se torna mais complexo — e ao mesmo tempo mais interessante. Porque o Brasil não parte do vazio. O país já possui bases relevantes: indústria, agronegócio, mineração, capacidade energética, sistema financeiro, centros tecnológicos, engenharia e algumas empresas com reconhecimento internacional em setores altamente sofisticados. O problema não está na inexistência de capacidades. Está na dificuldade histórica de transformar essas capacidades em um processo contínuo, coordenado e acumulativo de construção nacional.
Existe ainda uma terceira diferença, talvez a mais importante de todas: a diferença entre crescer… e construir-se. Crescer pode ser circunstancial. Construir-se exige direção.
Um país pode atravessar períodos de expansão econômica sem alterar estruturalmente sua posição no mundo. Pode crescer impulsionado por ciclos favoráveis, exportações fortes ou consumo interno elevado sem necessariamente consolidar autonomia tecnológica, capacidade industrial avançada ou influência estratégica duradoura.
Construir-se, pelo contrário, implica transformar crescimento em estrutura. Transformar riqueza em capacidade. Transformar recursos em soberania produtiva. Transformar potencial em continuidade histórica.
E é precisamente este tipo de decisão que começa lentamente a surgir diante do Brasil. Porque o mundo que está emergindo provavelmente oferecerá oportunidades importantes para países com recursos, energia, escala e capacidade de adaptação. Mas também será um mundo muito mais competitivo, seletivo e exigente. Um mundo onde as grandes potências buscarão proteger cadeias produtivas, garantir acesso a minerais críticos, desenvolver autonomia tecnológica e reduzir vulnerabilidades estratégicas.
Nesse contexto, permanecer apenas como fornecedor de recursos naturais pode significar ocupar uma posição relevante… mas limitada. A verdadeira questão talvez seja outra: se o Brasil deseja continuar sendo um país importante dentro do mundo construído pelos outros… ou se pretende começar, gradualmente, a construir as condições necessárias para tornar-se um dos atores capazes de influenciar o próprio desenho do século XXI.
A necessidade de começar a pensar em décadas
Existe uma característica comum em praticamente todos os países que conseguiram transformar-se estruturalmente ao longo da história moderna: todos aprenderam, em algum momento, a pensar para além do imediato. Nenhuma potência relevante foi construída em quatro anos. Nenhuma transformação profunda surgiu apenas de um ciclo político. Nenhuma sociedade consolidou capacidade tecnológica, industrial ou estratégica sustentando-se exclusivamente sobre decisões de curto prazo.
As estruturas que definem a posição de um país no mundo exigem tempo. E, muitas vezes, muito mais tempo do que as sociedades contemporâneas parecem dispostas a aceitar.
Educação demora décadas. E talvez esta seja uma das questões mais decisivas para o Brasil contemporâneo. Porque o país ainda possui tempo para formar as gerações que poderão sustentar uma transformação estrutural nas próximas décadas. Mas esse tempo útil começa agora — e não quando a necessidade já se tornar evidente demais para ser ignorada. Não apenas a construção física de escolas e universidades, mas a formação gradual de gerações tecnicamente preparadas, capazes de produzir conhecimento, engenharia, ciência aplicada e capacidade industrial sofisticada. Formar engenheiros, pesquisadores, técnicos especializados e estruturas de inovação não é um processo instantâneo. É acumulativo. E só funciona quando existe continuidade suficiente para permitir maturação.
Infraestrutura também demora décadas. Ferrovias, portos, redes energéticas, corredores logísticos, sistemas digitais e integração territorial não se consolidam rapidamente. Mesmo quando os recursos financeiros existem, grandes estruturas nacionais exigem estabilidade política, coordenação institucional e capacidade de execução sustentada ao longo do tempo. Países que hoje parecem altamente organizados passaram décadas construindo silenciosamente aquilo que, mais tarde, se transformaria em vantagem competitiva.
O mesmo acontece com energia. Uma matriz energética robusta não surge espontaneamente. A expansão da capacidade de geração, transmissão, armazenamento e integração energética exige investimentos prolongados, planejamento técnico e visão de longo prazo. E isto tende a tornar-se ainda mais importante num século onde inteligência artificial, automação, digitalização e eletrificação aumentarão significativamente a necessidade de energia estável, abundante e acessível.
Tecnologia talvez seja um dos exemplos mais claros desta lógica. As grandes capacidades tecnológicas globais que hoje parecem naturais — seja nos Estados Unidos, na Europa ou na Ásia — resultam de décadas de investimento contínuo, proteção estratégica, formação técnica, pesquisa e desenvolvimento industrial. Nenhum ecossistema tecnológico relevante nasce apenas de intenção política ou entusiasmo momentâneo. Ele exige persistência histórica.
Mas talvez exista um elemento ainda mais lento e mais difícil de construir do que todos os anteriores: a cultura produtiva. A forma como uma sociedade encara conhecimento, trabalho técnico, produtividade, eficiência, planejamento e responsabilidade coletiva não muda rapidamente. Países que conseguiram elevar significativamente seu nível de desenvolvimento não transformaram apenas sua economia. Transformaram gradualmente a relação cultural com o tempo, com o esforço acumulativo e com a própria ideia de construção nacional.
E é precisamente aqui que aparece uma das questões mais delicadas para sociedades que vivem excessivamente condicionadas pela lógica imediata. O tempo político raramente coincide com o tempo histórico necessário para construir um país. Governos pensam frequentemente em eleições. Mercados pensam muitas vezes em resultados trimestrais. Redes sociais vivem da instantaneidade. Mas infraestrutura, tecnologia, energia, educação e capacidade estratégica obedecem a outro ritmo. Um ritmo mais lento, menos visível e muito mais exigente.
Talvez por isso tantas sociedades acabem reagindo apenas quando a pressão se torna evidente demais para ser ignorada. Quando a dependência já está consolidada. Quando a perda de competitividade já ocorreu. Quando o atraso tecnológico já se aprofundou. Quando o tempo útil para construir tornou-se muito menor. E talvez seja precisamente este o maior risco para países que possuem grande potencial estrutural: imaginar que sempre haverá tempo suficiente para começar. Porque o maior erro de um país raramente é começar devagar. O maior erro costuma ser começar tarde.
O tempo útil começa antes da urgência
O mundo já começou a mover-se. Talvez não de forma suficientemente visível para o cotidiano imediato de grande parte das sociedades, mas claramente perceptível para aqueles que observam os movimentos mais profundos da economia, da tecnologia, da energia e da geopolítica global. As grandes potências reposicionam cadeias produtivas, disputam minerais estratégicos, reforçam autonomia tecnológica, ampliam capacidades energéticas e tentam reduzir vulnerabilidades que, durante muito tempo, pareciam secundárias num mundo excessivamente confiante na estabilidade da globalização.
O século XXI começa lentamente a revelar uma lógica diferente daquela que marcou as últimas décadas. Mais competição. Mais seletividade. Mais necessidade de capacidade interna. Mais importância estratégica da energia, da tecnologia, da infraestrutura e do conhecimento.
E, nesse cenário, alguns países entram na próxima etapa histórica pressionados pelo envelhecimento populacional, pela limitação territorial, pela dependência energética ou pela perda gradual de capacidade produtiva. Outros, porém, ainda conservam margem de manobra suficiente para decidir como desejam posicionar-se no mundo que está surgindo.
O Brasil continua sendo um desses casos raros. Ainda possui território, recursos, energia, água, população ativa e capacidade potencial para construir uma posição estrutural muito mais relevante nas próximas décadas. Ainda possui margem para industrializar-se de forma mais sofisticada, desenvolver setores estratégicos, ampliar autonomia tecnológica e transformar recursos naturais em capacidade real de influência e desenvolvimento.
Mas oportunidades históricas raramente permanecem abertas indefinidamente. A história dos países está cheia de momentos em que o potencial existia, os recursos estavam disponíveis e as condições pareciam favoráveis — até que o tempo passou, o contexto mudou e aquilo que parecia uma possibilidade natural transformou-se numa oportunidade perdida.
Porque o futuro não será definido apenas por quem possui recursos. Será definido, sobretudo, por quem conseguir preparar-se a tempo para transformar esses recursos em capacidade produtiva, tecnológica, energética e estratégica. E talvez seja precisamente aqui que começa a verdadeira questão brasileira do século XXI. Não apenas crescer. Não apenas participar. Mas decidir, com suficiente maturidade histórica, aquilo que o país deseja efetivamente construir antes que o próprio mundo torne essa decisão muito mais difícil.
O século XXI ainda pode reservar ao Brasil um papel muito maior do que muitos imaginam. Mas o tempo necessário para construir esse futuro começa muito antes do momento em que ele se torna inevitável. Talvez o verdadeiro desafio brasileiro das próximas décadas não seja simplesmente crescer mais. Talvez seja, finalmente, decidir construir-se com a maturidade histórica que um mundo cada vez mais competitivo começará a exigir.
Você pode continuar lendo o artigo a seguir aqui: O Brasil também precisa de sua geração mais experiente
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Este artigo não é uma peça isolada. Faz parte de um sistema mais amplo de reflexão.
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“O problema não está na inexistência de capacidades. Está na dificuldade histórica de transformar essas capacidades em um processo contínuo, coordenado e acumulativo de construção nacional.” Enquanto nós, brasileiros, continuarmos a aceitar os desmandos da classe dominante, este País continuará patinando no cenário mundial. No cenário muto bem desenhado pelo Autor ainda há espaço para esperança, mas, infelizmente, minha geração não terá esse privilégio. Enquanto o lema for EU GOVERNO PARA MIM E PARA OS MEUS este País sempre será classificado como em desenvolvimento.
Entendo perfeitamente sua visão, e talvez justamente por isso eu ache importante continuar refletindo sobre o futuro do Brasil sem cair totalmente no desalento. Muitos países que hoje admiramos também passaram décadas — ou séculos — presos a elites pouco comprometidas com um projeto nacional mais amplo.
Talvez a grande questão seja precisamente começar, pouco a pouco, a construir uma cultura de longo prazo que sobreviva aos governos, aos interesses imediatos e às gerações. E mesmo que muitos de nós talvez não vejamos o resultado final, isso não significa que não valha a pena começar o caminho.
Da minha parte, continuarei refletindo sobre tudo isso e, modestamente, tentando aportar e incentivar ideias que talvez possam ajudar, ainda que minimamente, a pensar o Brasil de forma um pouco mais estratégica e menos imediata.
Sóc fidel seguidora dels seus articles i destaco del seu treball el compromís de donar a conèixer, no amb voluntat de confrontació, sinó amb la intenció de mirar amb claredat, la necessitat d’entendre el que hi ha darrere del que “vostè veu” i es veu, però costa de copsar pels altres.
Des de l’ altra banda de l’ Atlàntic que ens separa, la societat brasilera en constant mutació no tant natural sinó deguda a moviments geopolítics i formes de govern desnaturalitzadors continua mostrant un país immens, molt heterogeni ètnicament, culturalment i regionalment, construït sobre una història colonial i amb una identitat nacional complexa. Hi ha qui defensa que existeix una nació brasilera forta, i hi ha qui considera que és sobretot un estat continental amb identitats molt diverses post colonials, però jo crec que sense ànims de retrobar-se amb el seu passat i orígens nacionals primigenis perquè la sotmissio que imposa el Globalisme té implícita la SUBJECCIÓ i trencar aquesta dinàmica és el futur que no sols ha de fer Brasil, sinó totes les Nacions i Països Sobirans per ells mateixos.
El Brasil Sobirà serà aquest i vindrà definit per l’ esforç dels Brasilers en retrobar-se.