Quando a paz se torna um mau negócio

Há momentos em que uma única frase consegue resumir uma intuição que milhões de pessoas percebem confusamente, mas que raramente se atrevem a formular abertamente. São aquelas frases que, sem necessidade de grandes teorias nem explicações complexas, abrem uma fissura na narrativa dominante e obrigam a olhar a realidade por um ângulo diferente. Uma dessas frases foi a que Julian Assange pronunciou quando afirmou que “o objetivo de determinadas guerras modernas não era necessariamente vencê-las, mas prolongá-las”. Sua afirmação foi recebida com ceticismo por uns, com indignação por outros e com interesse por aqueles que intuíram que, por trás dos conflitos contemporâneos, existiam mecanismos mais profundos do que aqueles habitualmente explicados pelos governos, pelos meios de comunicação ou pelos analistas convencionais.
À primeira vista, a ideia parece exagerada. A guerra tem sido tradicionalmente apresentada como um instrumento destinado a alcançar objetivos concretos: conquistar territórios, derrotar um inimigo, proteger fronteiras, garantir recursos estratégicos ou impor determinadas condições políticas. Segundo essa visão, os conflitos têm um início, um desenvolvimento e um desfecho. Podem ser mais longos ou mais curtos, mais cruéis ou menos, mas seu objetivo final continua sendo a vitória. A frase de Assange rompe completamente com esse esquema porque sugere uma possibilidade radicalmente diferente: que, para determinados atores, a vitória não seja o objetivo principal e que o verdadeiro valor do conflito resida precisamente na sua continuidade.
Essa interpretação obriga a repensar muitas das perguntas que habitualmente fazemos quando observamos uma guerra. Durante décadas, o debate público concentrou-se em identificar responsáveis, estabelecer culpabilidades, analisar estratégias militares ou discutir a legitimidade das intervenções. São questões importantes, sem dúvida. Mas existe outra pergunta que quase nunca ocupa o centro da conversa e que, no entanto, pode revelar-se igualmente ou até mais esclarecedora: quem se beneficia da existência prolongada do conflito? Não se trata de perguntar quem vence uma batalha ou quem obtém uma determinada concessão diplomática, mas quem obtém vantagens econômicas, políticas ou institucionais do simples fato de que a guerra continue existindo.
A história contemporânea oferece numerosos exemplos que alimentam essa reflexão. O Afeganistão durou vinte anos. O Iraque transformou toda uma região durante décadas. A guerra contra o terror tornou-se um conceito quase permanente. A Ucrânia continua absorvendo recursos imensos anos após o seu início. Gaza tornou-se um foco recorrente de tensão internacional. O Irã emerge mais uma vez como um novo epicentro de instabilidade regional. Os cenários mudam, os protagonistas mudam e até os argumentos oficiais evoluem com o tempo, mas existe uma sensação persistente de que o sistema global é extraordinariamente eficaz na gestão dos conflitos e surpreendentemente ineficaz na sua resolução definitiva.
É precisamente aqui que a reflexão de Assange se conecta ao núcleo conceitual de Fonsfera. O propósito de Fonsfera não é determinar quem dispara o primeiro tiro nem atribuir a um ator específico a responsabilidade exclusiva pelos acontecimentos. Seu objetivo é observar as estruturas profundas que condicionam o funcionamento do sistema contemporâneo e analisar como circulam o poder, os recursos e a influência dentro dessas estruturas. Quando o mundo é observado a partir dessa perspectiva, os conflitos deixam de ser apenas episódios geopolíticos e passam a fazer parte de uma arquitetura muito mais ampla, na qual guerra, segurança, financiamento, dívida, indústria, informação e poder político estão intimamente conectados.
A questão fundamental não é se existe uma conspiração centralizada capaz de dirigir os acontecimentos mundiais a partir de um escritório oculto. Essa costuma ser uma simplificação que impede a compreensão da realidade. A questão é muito mais profunda e, ao mesmo tempo, muito mais inquietante. O que acontece quando uma parte significativa das estruturas econômicas, financeiras e institucionais do mundo obtém benefícios diretos ou indiretos da existência de um ambiente permanente de insegurança? O que acontece quando a guerra deixa de ser uma exceção e se transforma em uma atividade integrada ao funcionamento ordinário do sistema? E o que acontece quando a paz, longe de representar uma oportunidade universal, começa a aparecer como uma ameaça potencial para determinados fluxos de recursos e determinadas estruturas de poder?
Essas perguntas são incômodas porque obrigam a deslocar o olhar. Elas nos afastam do campo de batalha e nos aproximam dos centros de decisão. Nos afastam dos discursos emocionais e nos conduzem aos balanços contábeis. Obrigam-nos a observar não apenas quem morre, quem sofre ou quem resiste, mas também quem fatura, quem financia, quem investe e quem acumula poder enquanto os conflitos se prolongam. Talvez seja por isso que a reflexão de Assange continue provocando debate anos depois de ter sido formulada. Porque, para além de sua exatidão literal, ela aponta para uma questão que muitos preferem evitar: a possibilidade de que, no mundo contemporâneo, a guerra não seja apenas uma tragédia humana, mas também um extraordinário modelo de negócio.
O QUE SIGNIFICA EXATAMENTE UMA GUERRA SEM FIM
Quando Julian Assange fala de guerras sem fim, não descreve necessariamente um mundo mergulhado em combates permanentes nem sugere que os conflitos devam durar para sempre. Sua reflexão aponta para uma realidade muito mais sutil e, precisamente por isso, muito mais difícil de perceber. Uma guerra sem fim é aquela que nunca chega realmente ao seu encerramento definitivo. Pode mudar de nome, de geografia ou de protagonistas, mas sua função dentro do sistema continua sendo a mesma. Os conflitos param parcialmente, congelam-se, transformam-se ou deslocam-se, mas raramente desaparecem completamente. Quando um foco de tensão diminui, outro emerge. Quando um inimigo deixa de ser útil, surge uma nova ameaça. Quando uma guerra parece aproximar-se da sua conclusão, uma nova crise internacional ocupa imediatamente o seu lugar na agenda política, mediática e econômica.
Essa dinâmica é especialmente visível quando se observa a evolução dos conflitos internacionais nas últimas décadas. O fim da Guerra Fria alimentou a esperança de um período de maior estabilidade global. Muitos analistas chegaram a imaginar um mundo em que a cooperação econômica substituiria progressivamente as grandes confrontações geopolíticas. A realidade foi muito diferente. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, o sistema internacional parece ter entrado em uma sucessão praticamente ininterrupta de crises. O Afeganistão deu lugar ao Iraque. O Iraque evoluiu para a Síria. A Síria conviveu com múltiplos conflitos regionais. Posteriormente surgiram novas tensões no leste europeu com a Ucrânia. Gaza voltou a ocupar o centro da atenção mundial. O Irã emergiu novamente como ator central nas tensões do Oriente Médio. Paralelamente, continuam existindo disputas na África, na Ásia-Pacífico e em outras regiões estratégicas. O mapa dos conflitos modifica-se constantemente, mas a sensação de viver em um mundo permanentemente tensionado permanece inalterada.
O mais revelador é que essa situação já não é percebida como uma exceção. A instabilidade deixou de ser uma anomalia para transformar-se em normalidade. As sociedades ocidentais convivem com um fluxo contínuo de notícias relacionadas a ameaças militares, ciberataques, riscos terroristas, tensões nucleares, disputas territoriais, sanções econômicas e crises geopolíticas. Ainda que os cidadãos não vivam diretamente os combates, a sensação de risco permanente faz parte do ambiente informativo cotidiano. O mundo parece estar sempre às portas de uma nova crise, de um novo conflito ou de uma nova emergência internacional.
Essa transformação é importante porque modifica a própria natureza da guerra. Historicamente, os conflitos eram episódios excepcionais que interrompiam períodos de relativa normalidade. Hoje parece ocorrer o fenômeno inverso. A normalidade passa a ser a tensão permanente, enquanto a paz completa se torna uma situação cada vez mais rara e transitória. Não se trata apenas de guerras convencionais. Também entram em cena as guerras comerciais, as guerras tecnológicas, as guerras energéticas, as guerras financeiras e as guerras informativas. O conflito assume formas diversas, mas continua exercendo a mesma função: manter um ambiente de incerteza que justifica determinadas decisões políticas, econômicas e militares.
Sob a perspectiva de Fonsfera, esta é uma das transformações mais profundas da nossa época. O sistema contemporâneo não parece orientado para construir uma estabilidade duradoura, mas para gerir níveis permanentes de instabilidade controlada. Não se busca necessariamente o colapso total, porque isso prejudicaria todos. Mas tampouco se busca uma resolução definitiva dos conflitos. O que emerge é uma espécie de equilíbrio instável, em que as tensões permanecem suficientemente ativas para justificar determinadas estruturas de poder, determinadas políticas públicas e determinados fluxos econômicos, mas sem chegar habitualmente ao ponto de destruir completamente o sistema que as sustenta.
É precisamente aqui que a ideia de Assange adquire toda a sua força. Uma guerra sem fim não é uma guerra que dura eternamente em um mesmo lugar. É um modelo em que o conflito se converte em uma presença estrutural do sistema internacional. Os cenários mudam, os atores mudam e as narrativas mudam, mas a necessidade de um ambiente permanente de risco permanece intacta. A guerra deixa de ser um acidente que altera o funcionamento do sistema. Converte-se em uma das condições que permitem o seu funcionamento ordinário.
Sob essa perspectiva, a pergunta já não é por que existem tantos conflitos simultâneos no mundo. A pergunta é se a arquitetura política, econômica e financeira contemporânea chegou a um ponto em que necessita da presença constante de ameaças para continuar operando da forma como opera. Se essa hipótese estiver correta, a guerra deixa de ser apenas uma tragédia humana ou um fracasso diplomático. Passa a integrar um mecanismo muito mais amplo, no qual a insegurança se transforma em recurso e a tensão permanente em um dos combustíveis invisíveis que alimentam o sistema.
OS INCENTIVOS ECONÔMICOS QUE SURGEM EM TORNO DOS CONFLITOS
Quando se fala de guerra, a maioria das pessoas imagina soldados, armas, tanques, aviões ou campos de batalha. É uma reação compreensível, porque são as imagens que ocupam as manchetes dos jornais e dos telejornais. Mas essa visão mostra apenas a superfície visível do fenômeno. Sob essa camada existe uma realidade muito mais extensa, formada por milhões de contratos, transferências financeiras, investimentos, subsídios, linhas de crédito, programas públicos e operações empresariais que raramente aparecem nas manchetes. Sob uma perspectiva econômica, uma guerra moderna não é apenas um conflito militar. É também um enorme sistema de mobilização de recursos que pode chegar a movimentar centenas de bilhões de dólares ao longo dos anos.
Cada vez que uma crise internacional importante eclode, ativa-se imediatamente uma complexa cadeia econômica. Os governos aprovam novos orçamentos. Os ministérios da defesa ampliam suas aquisições. As empresas fabricantes de equipamentos militares aumentam suas encomendas. As companhias logísticas assumem novas operações de transporte. Os bancos facilitam financiamento. As seguradoras recalculam riscos. As empresas de tecnologia desenvolvem sistemas de comunicação, vigilância e processamento de dados. Os serviços de inteligência ampliam suas estruturas. Os centros de pesquisa obtêm novos recursos. Os contratados privados multiplicam sua atividade. Até mesmo setores aparentemente distantes da guerra, como energia, matérias-primas ou telecomunicações, veem seus mercados e suas oportunidades de negócio alterados.
Por esse motivo, é insuficiente reduzir a questão à indústria armamentista. Evidentemente, as empresas de defesa constituem uma peça central desse mecanismo, mas estão longe de ser as únicas beneficiárias. Em torno de cada conflito configura-se um ecossistema extraordinariamente amplo de interesses econômicos que abrange setores muito diversos e que frequentemente se reforçam mutuamente. A insegurança gera novas necessidades. As novas necessidades geram novos orçamentos. Os novos orçamentos geram contratos. Os contratos geram lucros. E esses lucros alimentam estruturas empresariais que, com o tempo, passam a depender parcialmente da continuidade desse fluxo de recursos.
Essa é uma realidade que frequentemente se revela incômoda porque questiona uma das ideias mais enraizadas nas sociedades modernas: a crença de que todas as estruturas econômicas compartilham necessariamente um interesse natural pela paz. A história demonstra que isso nem sempre é assim. Há setores que prosperam em ambientes de estabilidade, previsibilidade e crescimento sustentado. Mas também existem outros que obtêm uma parte significativa de suas receitas da existência de riscos, ameaças ou tensões permanentes. A insegurança não é apenas um problema a ser administrado. Também é um mercado. E, como qualquer mercado, gera fornecedores, clientes, oportunidades de negócio e interesses consolidados.
A guerra moderna apresenta, além disso, uma característica especialmente relevante. Diferentemente dos conflitos do passado, ela já não se limita à destruição física. As guerras contemporâneas geram enormes demandas por tecnologia, informação, cibersegurança, inteligência artificial, satélites, sistemas de controle, monitoramento financeiro, segurança energética e infraestruturas digitais. Isso amplia consideravelmente o número de atores que podem obter benefícios indiretos da existência de um ambiente global tensionado. A fronteira entre economia civil e economia da segurança torna-se cada vez mais difusa, a ponto de muitas das grandes empresas de tecnologia do mundo manterem hoje relações diretas ou indiretas com programas vinculados à defesa e à segurança nacional.
É nesse contexto que a frase de Assange adquire uma dimensão particularmente inquietante. Se um conflito mobiliza recursos extraordinários, gera contratos bilionários, aumenta orçamentos públicos, ativa setores industriais inteiros e cria oportunidades de negócio que não existiriam em um ambiente de normalidade, é legítimo perguntar quais incentivos reais existem para que esse fluxo desapareça completamente. Não se trata necessariamente de alguém desejar a guerra por motivos ideológicos ou militares. Pode ser suficiente que muitas estruturas econômicas tenham incorporado a sua existência aos seus modelos de funcionamento e às suas expectativas de crescimento.
A questão torna-se ainda mais relevante quando se observa o comportamento habitual dos orçamentos públicos. As políticas relacionadas à segurança tendem a apresentar uma característica singular: uma vez criadas, raramente desaparecem. Os programas excepcionais tornam-se permanentes. As estruturas provisórias institucionalizam-se. Os investimentos extraordinários passam a integrar os orçamentos ordinários. Cada nova crise justifica uma ampliação adicional dos recursos destinados ao setor, enquanto as reduções posteriores costumam ser muito mais modestas. Com o tempo, o sistema acumula camadas sucessivas de despesa que dificilmente retornam aos níveis anteriores.
Isso conduz a uma conclusão central para compreender a lógica da guerra permanente. A paz tende a reduzir necessidades. A guerra tende a multiplicá-las. A paz simplifica estruturas. A guerra as expande. A paz limita determinados fluxos econômicos. A guerra abre novos. E qualquer atividade capaz de gerar receitas recorrentes durante anos ou décadas acaba desenvolvendo mecanismos, conscientes ou inconscientes, orientados para preservar a sua própria continuidade.
Sob a perspectiva de Fonsfera, este é o ponto essencial. A guerra não produz apenas destruição. Também produz negócios. Não gera apenas vítimas. Também gera beneficiários. E enquanto existirem estruturas econômicas capazes de obter vantagens significativas da persistência da insegurança global, será difícil sustentar que todos os atores envolvidos compartilham exatamente o mesmo interesse na construção de uma paz definitiva e duradoura.
A CONCENTRAÇÃO DO CAPITAL NOS GRANDES FUNDOS E INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS
É neste ponto que a reflexão de Fonsfera toma uma direção diferente da maioria das análises sobre os conflitos internacionais. As explicações tradicionais costumam concentrar-se nos Estados, nos governos, nos exércitos ou nos líderes políticos. São elementos importantes, sem dúvida, mas frequentemente ocultam uma transformação muito mais profunda que ocorreu ao longo das últimas décadas: a concentração progressiva do capital global nas mãos de um número relativamente reduzido de grandes instituições financeiras. Essa transformação não foi repentina nem visível para a maioria dos cidadãos. Foi lenta, gradual e aparentemente natural. No entanto, suas consequências são profundas e afetam praticamente todos os setores estratégicos da economia mundial.
Pela primeira vez na história moderna, uma parte significativa das grandes empresas do planeta compartilha os mesmos acionistas institucionais. Os mesmos gestores de ativos aparecem simultaneamente em empresas de energia, bancos, seguradoras, corporações tecnológicas, grupos industriais, meios de comunicação, empresas farmacêuticas, infraestruturas de telecomunicações e fabricantes de armamentos. Aquilo que aparentemente são organizações independentes que competem entre si nos mercados compartilha frequentemente uma parte de seus proprietários finais. Essa realidade não significa necessariamente que todas essas empresas atuem de forma coordenada nem que exista uma direção central única determinando cada decisão. Mas significa, sim, que uma parte crescente dos lucros gerados pelos diferentes setores da economia acaba convergindo para os mesmos centros financeiros.
Esse fenômeno altera profundamente a forma de compreender as relações entre economia e poder. Durante grande parte do século XX, era relativamente simples identificar grandes grupos industriais, grandes bancos ou grandes empresas vinculadas a setores específicos. Hoje a situação é muito mais complexa. Os grandes gestores de ativos não representam um único setor econômico. Participam simultaneamente de dezenas de setores diferentes. Sua força não provém de controlar uma indústria específica, mas de estarem presentes em uma grande parte das atividades econômicas relevantes do planeta. Essa posição privilegiada lhes permite beneficiar-se de múltiplas dinâmicas econômicas ao mesmo tempo, incluindo aquelas que emergem em períodos de instabilidade internacional.
Sob a perspectiva de Fonsfera, esta é uma das chaves fundamentais para compreender o mundo contemporâneo. A questão não consiste em afirmar que os grandes fundos de investimento criam guerras ou ordenam conflitos. Essa seria uma simplificação excessiva de uma realidade muito mais complexa. A questão é observar o que acontece quando uma mesma arquitetura financeira participa simultaneamente de setores que obtêm benefícios da existência de tensões geopolíticas persistentes. Quando os mesmos centros de capital estão presentes em empresas de energia afetadas por crises internacionais, em corporações tecnológicas vinculadas à segurança, em bancos que financiam operações globais e em empresas relacionadas à defesa, surge inevitavelmente uma convergência de interesses em torno da gestão permanente da insegurança.
Este é um aspecto especialmente relevante porque rompe com a visão simplista da conspiração clássica. Fonsfera não precisa imaginar uma reunião secreta na qual alguém decide iniciar uma guerra. Tampouco precisa atribuir a um pequeno grupo de pessoas a capacidade de controlar todos os acontecimentos mundiais. O mecanismo é muito mais sofisticado e, precisamente por isso, muito mais poderoso. O próprio sistema gera incentivos que favorecem a sua reprodução. Quando uma estrutura econômica obtém benefícios recorrentes de determinada situação, tende a adaptar-se a ela, incorporá-la às suas expectativas e, finalmente, considerá-la parte do seu funcionamento normal.
É aqui que a concentração financeira adquire uma dimensão geopolítica. A guerra, as tensões regionais, as disputas energéticas, as crises de segurança e os confrontos tecnológicos deixam de ser apenas episódios políticos. Transformam-se também em fatores que influenciam mercados inteiros, avaliações bursáteis, fluxos de capital e oportunidades de negócio. E quando esses fluxos acabam alimentando os mesmos centros financeiros repetidamente, torna-se legítimo perguntar até que ponto o sistema conserva incentivos reais para favorecer uma estabilidade completa e duradoura.
O paradoxo é evidente. Quanto mais concentrado está o capital global, mais difusa se torna a fronteira entre setores aparentemente independentes. Uma crise energética pode gerar lucros em um setor. Uma tensão militar pode impulsionar contratos em outro. Uma escalada geopolítica pode justificar novos investimentos tecnológicos. Uma guerra pode aumentar os gastos públicos. E uma parte significativa dos fluxos econômicos gerados por todas essas situações acaba convergindo para estruturas financeiras que participam simultaneamente de múltiplos setores. O resultado não é necessariamente um planejamento centralizado, mas um alinhamento de incentivos extraordinariamente poderoso.
Por isso, Fonsfera sustenta que a questão central não é determinar quem provoca cada conflito concreto. A questão é identificar quem se encontra em uma posição privilegiada para beneficiar-se da soma de todos eles. Quando se observa o sistema sob essa perspectiva, a concentração financeira deixa de ser simplesmente um fenômeno econômico. Torna-se uma peça essencial da arquitetura global do poder.
A guerra pode começar por motivos históricos, territoriais, ideológicos ou geopolíticos. Mas, uma vez iniciada, ativa uma rede de interesses econômicos que transcende os combatentes e os governos envolvidos. É nesse espaço, situado entre os conflitos visíveis e os fluxos invisíveis de capital, que Fonsfera situa uma parte substancial da sua análise. Porque, se as guerras geram beneficiários recorrentes, e se esses beneficiários se concentram progressivamente nas mesmas estruturas financeiras globais, a pergunta deixa de ser acessória. Torna-se uma das questões fundamentais do nosso tempo.
A RELAÇÃO ENTRE MEDO, SEGURANÇA E GASTO PÚBLICO
Se a guerra é o motor visível de uma parte importante da atividade econômica contemporânea, o medo é o seu combustível invisível. Sem medo, muitas das dinâmicas descritas nas seções anteriores seriam muito mais difíceis de sustentar. Sem medo, os cidadãos questionariam com muito mais intensidade determinadas decisões políticas. Sem medo, muitas transferências massivas de recursos públicos encontrariam considerável resistência. Sem medo, boa parte das estruturas de segurança que hoje são consideradas indispensáveis teria de justificar a sua existência de maneira muito mais rigorosa. Por isso, quando se analisa o funcionamento profundo da economia de guerra permanente, é difícil evitar uma conclusão evidente: a matéria-prima mais valiosa do sistema não são as armas, nem o petróleo, nem sequer o dinheiro. É a percepção de ameaça.
O medo ocupa um lugar singular no comportamento humano. É provavelmente uma das emoções mais poderosas de toda a nossa herança evolutiva. Durante centenas de milhares de anos, foi um mecanismo indispensável para a sobrevivência. Os indivíduos que detectavam os perigos rapidamente tinham mais probabilidades de continuar vivos do que aqueles que os ignoravam. Essa característica continua fazendo parte da natureza humana atual. O cérebro humano reage às ameaças com uma intensidade muito superior àquela que demonstra diante das oportunidades. O risco mobiliza mais do que a tranquilidade. O perigo gera mais atenção do que a estabilidade. E a insegurança possui uma capacidade extraordinária de modificar comportamentos individuais e coletivos.
Os responsáveis políticos conhecem perfeitamente essa realidade. Também a conhecem os estrategistas militares, os serviços de inteligência, os especialistas em comunicação e, de forma geral, qualquer organização que necessite mobilizar recursos em larga escala. Quando uma sociedade percebe que existe uma ameaça grave, muitas das resistências habituais desaparecem. Aquilo que, em circunstâncias normais, provocaria debates intensos, oposição política ou protestos sociais passa a ser aceito como uma necessidade urgente. O medo modifica prioridades. Redefine urgências. Reorganiza as preocupações coletivas. E, sobretudo, gera uma predisposição muito maior para aceitar decisões excepcionais.
A história recente está repleta de exemplos. Após os atentados de 11 de setembro, os Estados Unidos e muitos outros países ocidentais aprovaram medidas de segurança que teriam sido difíceis de imaginar apenas alguns meses antes. Foram ampliados orçamentos, criadas novas estruturas administrativas, aumentadas as capacidades de vigilância e justificadas intervenções militares de grande alcance. Muitas dessas medidas foram apresentadas como excepcionais. No entanto, uma parte significativa delas continua em vigor décadas depois. O mesmo padrão repete-se frequentemente diante de novas crises internacionais. A ameaça gera uma resposta imediata. A resposta cria estruturas permanentes. E essas estruturas desenvolvem progressivamente interesses próprios orientados a garantir a sua continuidade.
Sob a perspectiva de Fonsfera, esse fenômeno é especialmente relevante porque estabelece a ponte entre o medo e os fluxos econômicos. Quando uma população aceita que sua segurança está em risco, aceita também que é necessário destinar mais recursos para protegê-la. Os governos aumentam os gastos. Os orçamentos públicos expandem-se. Frequentemente surge novo endividamento para financiar essas necessidades. Os mercados financeiros absorvem essa dívida. As empresas contratadas executam os programas aprovados. Os fornecedores oferecem novos produtos e serviços. Os recursos começam a circular através de toda uma cadeia de interesses econômicos que se beneficia diretamente da existência dessa percepção de ameaça.
Esse mecanismo é extraordinariamente poderoso porque funciona independentemente da realidade objetiva do risco. O que mobiliza os recursos não é apenas o perigo real, mas sobretudo a percepção social do perigo. Em termos políticos e econômicos, uma ameaça percebida pode gerar efeitos praticamente idênticos aos de uma ameaça efetiva. Essa característica transforma a gestão do medo em um elemento central das sociedades contemporâneas. Os cidadãos reagem àquilo que acreditam estar acontecendo. Os governos reagem às preocupações dos cidadãos. Os mercados reagem às decisões dos governos. E toda essa cadeia acaba transformando-se em movimentos de capital, contratos, orçamentos e oportunidades de negócio.
É aqui que a segurança deixa de ser exclusivamente uma necessidade legítima de proteção dos cidadãos e se transforma também em uma atividade econômica de dimensões colossais. A defesa, a vigilância, a cibersegurança, a inteligência, o controle de fronteiras, as infraestruturas críticas e muitas outras atividades relacionadas à proteção coletiva constituem hoje setores econômicos de primeira grandeza. Essa realidade não é necessariamente negativa em si mesma. Toda sociedade precisa proteger-se. O problema surge quando essas estruturas dependem, para o seu crescimento contínuo, da existência de um ambiente permanente de insegurança.
A partir desse ponto emerge um profundo paradoxo. Quanto maior a percepção de ameaça, mais fácil se torna justificar novos investimentos em segurança. Quanto mais investimentos são realizados, maiores se tornam as estruturas que vivem desses investimentos. E quanto maiores se tornam essas estruturas, mais difícil é reduzi-las quando a situação se normaliza. Com o tempo, o sistema desenvolve uma tendência natural a conservar os níveis de gasto alcançados e a buscar novas justificativas para mantê-los ou ampliá-los.
A sequência acaba adquirindo uma lógica quase automática. A guerra gera medo. O medo gera consentimento. O consentimento facilita o gasto público. O gasto público ativa os mecanismos financeiros e empresariais que transformam esse gasto em atividade econômica. E essa atividade econômica cria novos atores interessados na continuidade do processo. O resultado é uma arquitetura que não necessita de guerras permanentes em todas as frentes, mas sim da persistência de um nível suficiente de tensão global que permita manter vivo o fluxo de recursos.
Sob a perspectiva de Fonsfera, esta é uma das chaves fundamentais para compreender o mundo contemporâneo. O medo não é apenas uma emoção humana. É também um ativo político. É um recurso econômico. E, em determinadas circunstâncias, pode transformar-se em uma das matérias-primas mais valiosas de toda a arquitetura de poder que envolve a guerra permanente.
Se essa arquitetura realmente existe, ela deveria ser observável nos grandes conflitos do nosso tempo.
O MUNDO DE 2026: TRÊS GUERRAS, UMA MESMA REALIDADE
Enquanto estas linhas são escritas, o mundo observa simultaneamente três grandes conflitos em curso. A Rússia continua combatendo a Ucrânia em uma guerra que já ultrapassou todas as previsões iniciais de duração. Israel continua suas operações militares em Gaza e mantém uma confrontação aberta com o Líbano. Paralelamente, os Estados Unidos e Israel abriram uma nova frente contra o Irã, acrescentando um novo fator de instabilidade a uma das regiões mais sensíveis do planeta.
Para além dos discursos oficiais, existe uma realidade objetiva difícil de contestar: nenhum desses três conflitos apresenta hoje uma perspectiva clara de resolução definitiva. Os combates continuam. Os orçamentos continuam aumentando. As estruturas militares continuam expandindo-se. Os contratos continuam sendo assinados. Os recursos continuam circulando.
Talvez este seja o dado mais relevante de todos: não aquilo que se diz, mas aquilo que acontece.
Porque, se depois de anos de guerra na Ucrânia, depois da destruição de Gaza por Israel, depois da extensão do conflito ao Líbano e depois da abertura de uma nova frente dos Estados Unidos contra o Irã, o sistema internacional continua incapaz de impor uma resolução estável e duradoura, a pergunta formulada por Julian Assange adquire uma nova dimensão.
Talvez o problema não seja a falta de discursos sobre a paz.
Talvez o problema seja que as estruturas que obtêm benefícios da guerra são mais sólidas, mais permanentes e mais influentes do que as estruturas encarregadas de lhe pôr fim.
QUEM GANHA QUANDO A GUERRA NUNCA ACABA?
Chegados a este ponto, a reflexão deixa de ser estritamente geopolítica e transforma-se numa questão sistêmica. Ao longo das páginas anteriores observamos como os conflitos modernos mobilizam quantidades imensas de recursos, como a insegurança gera oportunidades econômicas, como a concentração financeira conecta setores aparentemente independentes e como o medo facilita transferências de recursos que, em outras circunstâncias, encontrariam uma resistência muito maior. Observadas individualmente, essas dinâmicas poderiam parecer fenômenos independentes. Observadas em conjunto, desenham uma arquitetura coerente. É essa arquitetura que Fonsfera procura descrever.
A ideia central é simples. O sistema contemporâneo não vive apesar da guerra. Vive também graças à guerra. Não porque todos os seus atores desejem conscientemente os conflitos, nem porque exista uma autoridade única capaz de dirigi-los a partir das sombras, mas porque uma parte significativa das estruturas econômicas, financeiras, industriais e políticas incorporou a insegurança permanente ao seu funcionamento ordinário. Com o tempo, o conflito deixou de ser uma exceção que interrompe o sistema. Tornou-se uma das condições que permitem mantê-lo em movimento.
Esse fenômeno torna-se especialmente visível quando se observa a relação entre os conflitos e os fluxos econômicos que eles geram. Cada crise internacional ativa mecanismos de gasto público, endividamento, contratação, investimento, produção industrial e movimentação de capitais. As guerras consomem recursos, mas também os redistribuem. Destroem riqueza em alguns lugares enquanto a geram em outros. Provocam sofrimento em determinadas regiões enquanto impulsionam negócios em outras. A destruição física visível convive com uma atividade econômica extraordinariamente intensa que se desenvolve longe dos campos de batalha. Essa dualidade constitui uma das características mais paradoxais da guerra moderna.
Na perspectiva de Fonsfera, o problema não é simplesmente que existam atores que obtenham benefícios dos conflitos. Isso aconteceu ao longo de toda a história. O problema surge quando esses beneficiários fazem parte de uma arquitetura financeira cada vez mais concentrada e globalizada. Quando os mesmos centros de capital participam simultaneamente de setores energéticos, tecnológicos, financeiros, midiáticos, industriais e de defesa, a insegurança deixa de ser apenas uma tragédia política. Torna-se também uma variável econômica com impacto direto sobre os fluxos de lucros.
Essa realidade transforma a própria natureza da paz. Tradicionalmente, a paz era considerada um objetivo universalmente desejável. Em teoria, todos os atores tinham interesse em alcançá-la. Mas quando uma parte significativa da atividade econômica depende da existência de riscos, ameaças e tensões permanentes, essa premissa começa a revelar fissuras. A paz continua sendo desejável para os povos, para os cidadãos e para as potenciais vítimas dos conflitos. Mas não necessariamente o é com a mesma intensidade para todas as estruturas que obtêm benefícios da existência de um mundo permanentemente tensionado.
É precisamente aqui que a frase de Julian Assange recupera toda a sua força. Talvez o objetivo não seja vencer as guerras. Talvez o objetivo também não seja perdê-las. Talvez o sistema tenha evoluído até um ponto em que o conflito permanente se tornou mais útil do que qualquer vitória definitiva. Uma guerra resolvida desaparece. Uma ameaça eliminada deixa de justificar orçamentos extraordinários. Um inimigo derrotado deixa de mobilizar recursos. A tensão permanente, por outro lado, mantém a máquina em funcionamento.
Por isso, a pergunta fundamental não é quem vence cada guerra específica. Os vencedores e os vencidos costumam mudar com o tempo. Os governos caem. As fronteiras se modificam. Os aliados de hoje podem transformar-se nos adversários de amanhã. Mas existem atores que continuam presentes independentemente do resultado final dos conflitos. São aqueles que se beneficiam do movimento constante dos recursos, do endividamento público, da expansão dos orçamentos de segurança, da necessidade de reconstrução e da gestão permanente da insegurança global.
Fonsfera sustenta que este é um dos grandes mecanismos ocultos do nosso tempo. Não porque seja invisível, mas porque raramente é observado em conjunto. As peças aparecem dispersas diante dos nossos olhos: guerras, orçamentos, dívida, contratos, mercados, tecnologia, segurança, medo e poder. Somente quando essas peças são contempladas simultaneamente emerge a imagem completa.
E a imagem que surge é inquietante.
A guerra já não é apenas uma tragédia humana.
Também é uma arquitetura econômica.
Também é uma arquitetura financeira.
Também é uma arquitetura de poder.
E enquanto essa arquitetura continuar obtendo benefícios da persistência da insegurança global, a paz completa e definitiva continuará sendo muito mais difícil de alcançar do que os discursos oficiais costumam reconhecer.
Ou melhor dizendo: impossível.
Porque nenhum sistema renúncia voluntariamente àquilo que alimenta a sua própria existência. E quando a guerra deixa de ser uma exceção e se transforma numa fonte recorrente de lucros, de poder e de controle, o seu desaparecimento deixa de ser uma opção racional para aqueles que prosperam graças a ela.
Esta é, provavelmente, a reflexão mais incômoda que Julian Assange colocou sobre a mesa.
E é também uma das conclusões mais profundas de Fonsfera.
Talvez a pergunta não seja quem vence as guerras. Talvez a pergunta seja quem precisa que elas nunca acabem.
Você pode continuar lendo o capítulo a seguir aqui: X — Arquitetura de segurança e economia de guerra permanente
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Este artigo não é uma peça isolada. Faz parte de um sistema mais amplo de reflexão.
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