🪞Destruens — O MOTIVO

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Há momentos em que o ser humano, mesmo rodeado de barulho, percebe que o silêncio do mundo pesa mais sobre ele do que qualquer palavra. E é nesse silêncio que surge a pergunta que muda tudo: o que fizemos com a nossa inteligência?

Vivemos em um tempo em que o conhecimento é infinito, mas a sabedoria escassa; em que a tecnologia se eleva como um deus onipotente, enquanto a humanidade se apequena sob o seu próprio reflexo. Autodenominamo-nos Sapiens —os que sabem—, mas talvez esse nome contenha a nossa primeira grande mentira. Sabemos, sim, mas não entendemos. Compreendemos, mas não sentimos. Criamos, mas também destruímos com a mesma habilidade, muitas vezes com mais entusiasmo pela segunda do que pela primeira.

Esse espelho que chamo de Destruens nasce da necessidade de compreender esse paradoxo: o de uma espécie que se orgulha da razão e da consciência, enquanto age como o mais cego e impulsivo dos animais. Não é uma obra acadêmica nem um tratado filosófico; é uma reflexão livre, nascida de uma inquietação profunda e antiga. É o olhar de um homem que observa o mundo e vê uma sucessão de autodestruições: guerras sem sentido, fome ao lado da abundância, filhos que não escutam, pais que maltratam os seus próprios filhos, casais que se ferem até o limite, sociedades que afundam enquanto aplaudem o seu próprio espetáculo. Nenhuma outra espécie animal demonstra uma brutalidade tão extrema contra os seus —nem contra as suas crias, nem contra aqueles com quem compartilha a vida.

Mas talvez a chave não seja que tenhamos-nos tornado destrutivos, mas que sempre o tenhamos sido. Aquilo que chamamos de progresso talvez não seja mais do que a forma refinada e ordenada da mesma pulsão que um dia utilizou a pedra como arma. O Sapiens contou a sua própria história como uma ascensão, mas talvez seja uma história de ocultações: por trás de cada vitória existe uma perda, e sob cada avanço, uma ferida. Aprendemos a chamar de evolução aquilo que muitas vezes é apenas uma forma mais sofisticada de destruir.

Este é o olhar que Destruens propõe: não uma condenação, mas uma revelação. Aqui o Sapiens não é acusado; é despido. Não se diz que tenha mudado, mas que sempre foi o mesmo —apenas que agora o espelho já não pode quebrar-se sem reconhecê-lo. Porque aquilo que ele chama de humanidade talvez não seja mais do que a máscara que a destruição aprendeu a usar com orgulho.

Mas existe também uma outra razão que impulsiona estas páginas: a consciência de que, em algum momento da vida, chega a hora de olhar para trás e transformar a experiência em legado. Não um legado material, mas de visão e consciência. Tudo aquilo que foi vivido —os erros, os acertos, as derrotas e as vitórias— transforma-se em uma espécie de capital invisível que só tem sentido se for compartilhado. Aqueles de nós que vimos passar muitos ciclos intuímos que a vida é um movimento em espiral, que os processos se repetem com outros nomes e outros rostos, e que compreender esse padrão pode ajudar aqueles que virão a evitar sofrimentos desnecessários.

Transmitir aquilo que aprendemos não é vaidade, mas responsabilidade. Porque, se cada geração tivesse escutado com atenção as cicatrizes da anterior, talvez o mundo não repetisse tantos erros com tão pouca memória.

Não escrevo para julgar, mas para compreender; não para doutrinar, mas para provocar pensamento. Destruens é uma tentativa de olhar para nós mesmos no espelho sem maquiagem, de reconhecer que talvez a nossa grandeza —essa inteligência que nos diferencia— seja também a nossa maldição. Escrevo para aqueles que sentiram, ainda que por um instante, o desconforto de ser humanos; para aqueles que viram dor demais sem motivo e se perguntaram, como eu, se realmente merecemos o adjetivo de “Sapiens”.

Porque talvez, quando nos atrevemos a olhar para nós mesmos com honestidade, descubramos que aquilo que nos falta não é conhecimento, mas humildade. E que a verdadeira inteligência não é a que domina, mas a que sabe não ferir.

Esta é a razão de ser deste material. Não é uma denúncia, nem uma confissão. É uma viagem. E toda viagem começa diante de um espelho.

Esta obra fala no passado porque o passado é o único tempo em que a verdade pode respirar. O presente está demasiado cheio de barulho, e o futuro ainda não tem voz. Escrever no passado é olhar o mundo de fora dele, como se a narrativa fosse uma escavação da memória coletiva que nos trouxe até aqui. Não é a voz de um narrador, mas a de uma consciência que nos observa da outra margem do tempo —a margem onde as consequências já amadureceram. Dali, o espelho não reflete aquilo que somos, mas aquilo que fomos capazes de fazer. E talvez, somente desse lugar, seja possível compreender que toda história humana é, no fundo, uma elegia escrita pela Terra.

Talvez este espelho que abrimos não seja apenas uma metáfora, mas uma prova. Porque o Sapiens vive convencido de que avança, que cria, que melhora. Não vê a destruição que deixa pelo caminho, porque a chama de progresso. Não percebe a fumaça das suas ruínas, porque a chama de futuro. Mas, por trás dessa grandiosa ficção, respira uma outra presença, discreta e obstinada: o Destruens. Ele é a verdade que o Sapiens oculta de si mesmo para continuar existindo sem culpa. Este trabalho não pretende condená-lo, mas despi-lo. Pretende colocá-lo diante do espelho onde já não possa olhar para si sem ver aquilo que sempre foi. Talvez somente assim, quando o Sapiens se reconhecer no Destruens, começará o seu verdadeiro processo de evolução —não como espécie, mas como consciência.

Você pode continuar lendo o capítulo a seguir aqui:  O Caminho até o espelho

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Este artigo não é uma peça isolada. Faz parte de um sistema mais amplo de reflexão.

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