
O leitor que chega a estas páginas não encontrará um manual, nem um discurso para convencer ninguém. O que tem nas mãos é um espelho: um convite para olhar de frente a condição humana, sem ornamentos nem desculpas. Este livro não pretende possuir a verdade —talvez apenas a suspeita de que algo essencial se perdeu pelo caminho. O seu objetivo não é ensinar, mas acompanhar na reflexão daquilo que todos intuímos, mas raramente nos atrevemos a pensar com calma: que talvez a nossa espécie, apesar de ter conquistado o conhecimento, tenha perdido o sentido.
Destruens não fala dos humanos como se fossem uma abstração; fala de nós, de cada um de nós. Dos nossos gestos cotidianos, das nossas relações, dos silêncios e das renúncias que os dias acumulam. Fala do mundo que criamos e que muitas vezes já não compreendemos, e do paradoxo de termos transformado o progresso em uma nova forma de dependência. A ciência, a política, a fé, a tecnologia —todos esses instrumentos que deveriam libertar-nos— parecem ter-se transformado em mecanismos que nos aprisionam com ainda mais sofisticação.
Esta reflexão é escrita a partir do presente, mas com um olhar que percorre todo o caminho do Sapiens desde os seus primeiros passos sobre a superfície deste planeta que chamamos Terra. Um planeta que não nos pertence, mas do qual somos herdeiros e guardiões temporários, com a obrigação moral de mantê-lo habitável para aqueles que virão depois. E, no entanto, durante milhares de anos, o ser humano agiu como se o mundo fosse um cenário que pudesse devastar sem consequências: destruiu outras espécies, outros humanos e, finalmente, o seu próprio entorno. A sua história é, em grande parte, uma sucessão de destruições justificadas —em nome de deus, da ciência, do progresso ou do poder—, até o ponto em que hoje já não distinguimos entre construir e destruir.
Mas há uma nuance essencial que precisa ser feita desde o início: não é “a humanidade”, em bloco, quem destrói. Não é um ser coletivo, abstrato e anônimo. São indivíduos concretos, com nomes, com decisões, com silêncios e com interesses. Os Destruens escondem-se dentro do coletivo humano, aproveitando-se dessa massa difusa onde a responsabilidade se dilui até desaparecer. É uma das grandes habilidades do Sapiens: transferir a culpa para o conjunto a fim de evitar a vergonha individual. “Todos participamos disso”, dizemos —e assim ninguém é culpado.
Essa estratégia, tão antiga quanto sutil, permitiu que o poder, a cobiça ou a indiferença atuassem impunemente sob a proteção do grupo, da empresa, da nação, da religião, do sistema ou da história. Mas, por trás de cada guerra, de cada mentira, de cada destruição, existe sempre uma mão concreta, um rosto concreto, uma consciência concreta que escolhe calar ou agir.
Com o passar do tempo, essa diluição de responsabilidades aperfeiçoou-se. O Sapiens aprendeu a construir estruturas para proteger-se da sua própria culpa. Inventou conceitos nobres —como os de “justiça” ou de “instituição” — que, na prática, muitas vezes servem para ocultar o peso das decisões individuais. A justiça que se proclama cega, a burocracia que distribui o poder em mil compartimentos, as hierarquias que diluem a vontade em protocolos… Tudo isso configura um sistema concebido para tornar possível a destruição sem que ninguém se sinta autor dela.
Com os séculos, essa estratégia refinou-se, tecnificou-se e globalizou-se. As ferramentas que deveriam ter limitado o mal tornaram-no mais eficiente. E assim, a capacidade de destruição humana não desapareceu: cresceu, multiplicou-se e revestiu-se de legitimidade.
Por isso, Destruens não busca condenar o coletivo, mas despertar a responsabilidade pessoal. Somente quando cada indivíduo for capaz de assumir a sua parte no mundo que constrói —ou destrói— poderemos começar a falar de humanidade no sentido mais nobre da palavra.
O propósito deste livro é que tomemos consciência dessa inércia, dessa ideia tão enraizada de que é necessário destruir para construir, como se a ruína fosse o preço inevitável da evolução. Acostumamo-nos a pensar que todo nascimento exige uma morte, que todo avanço deve surgir das cinzas de algo anterior. Mas talvez este seja o nosso erro mais antigo: acreditar que o mundo só pode ser transformado à força.
Os outros seres vivos destroem apenas para sobreviver; nós, ao contrário, destruímos para afirmar-nos, para impor-nos, para sentirmo-nos dominadores de um sistema que não criamos. Talvez, depois de tudo, o nosso conceito de “sobreviver” seja profundamente diferente do das outras espécies. Ou talvez tenhamos simplesmente esquecido o que realmente significa viver.
Este livro percorre o caminho da destruição humana não como um ato de acusação, mas como uma tentativa de compreensão. A destruição que nele pulsa não é apenas física ou ambiental, mas moral, afetiva, espiritual. É a destruição do sentido, do respeito, da capacidade de nos maravilharmos diante da vida. O leitor encontrará aqui reflexões sobre a violência com que nos relacionamos com a natureza, com os outros e com nós mesmos; sobre o desejo de domínio que impregna a nossa história; sobre como a inteligência, sem consciência, transforma-se em uma força cega que devasta tudo.
A cada capítulo, o leitor mergulhará em um olhar diferente sobre esta mesma ferida: a do poder, a do medo, a da ambição, a do amor transformado em posse, a do progresso transformado em desculpa. Não existe uma ordem dogmática nem uma tese a demonstrar; existe um fio de pensamento que serpenteia entre ideias, emoções e realidades que todos conhecemos. O que se busca não é uma conclusão, mas uma tomada de consciência: ver com novos olhos aquilo que já sabíamos, mas aprendemos a ignorar.
Nestas páginas, o leitor encontrará frequentemente dois nomes: Homo Sapiens e Homo Destruens. Não designam espécies diferentes, mas duas presenças dentro do mesmo ser. O Sapiens é a mão que pensa; o Destruens, a mão que age. O primeiro contempla o mundo, o segundo o devora. São o reflexo e a sombra, a razão e a fome, coexistindo dentro do mesmo corpo que chamamos humanidade. Quando o Sapiens esquece o Destruens que carrega dentro de si, engana-se com o mito do progresso; quando o Destruens silencia o Sapiens, o mundo inteiro transforma-se em matéria de experimento. Esta é a tragédia e, ao mesmo tempo, a verdade do nosso espelho: que o ser capaz de compreender tudo é também o único capaz de destruir tudo.
Ler Destruens é como sentar-se por um instante para pensar com alguém que não deseja ter razão, mas compreender. É uma conversa com o tempo, com a experiência e com a memória coletiva dos erros humanos. É também um ato de esperança, porque, se ainda somos capazes de refletir sobre a nossa própria destruição, talvez nem tudo esteja perdido.
Não existem respostas fáceis aqui dentro, apenas a necessidade de um olhar honesto. E talvez isso, hoje, já seja uma forma de resistência.
Você pode continuar lendo o capítulo a seguir aqui: Capítulo 5 – A destruição do próprio ambiente
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